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terça-feira, outubro 28, 2003

Est vir qui adest
(É o homem que está diante de ti)

A propósito do lançamento do livro do Meu Pipi, chegaram à minha caixa postal mais umas perguntas sobre minha identidade.
Até agora recebi as seguintes propostas:
O Latinista é o Pipi (!) - Um leitor.
O VGM - Sete leitores: quatro depois de ter sido citado pelo JPP; dois depois de ter escrito uns versos de Ronsard; Um porque sim.
Um padre - Um leitor, depois da Felix Culpa.
O António Pedro (???) - Um leitor.
O EPC - Um leitor.
Um "latinista pouco ilustre porque não sabe que o nome de Borges não é José Luís" - Um leitor com atenção.
O Prof. Rosado Fernandes - Um leitor democrata-cristão.
Um Professor universitário que queria escrever nos jornais - Uma leitora.
Um "qualquer assistente de Letras" - Um ilustre Professor de Direito, que ignorava que estava a jantar, à roda de uma mesa, com o Latinista.

Confesso que, quando comecei a escrever este blogue, nunca pensei poder ter tantas identidades. Queria só ser como o pirata do Astérix: Com uma frase certa, em Latim, para cada vez que há um naufrágio.

P.S. Conta Carlos Frías:
"Uma mexicana abordou Borges na Feira do Livro de Buenos Aires e disse-lhe: "José Luis Borges, que alegria encontrá-lo aqui, tão longe da minha pátria! Quer autografar este livro para mim?" Ele assina o exemplar e mostra-lho, perguntando-lhe: "Está bem?" Tinha assinado: José Luis Borges. E comentou em seguida: "Temos de ser galantes com as damas. Imagine-se uma senhora mexicana... Não vamos entrar em discussões. Se ela quer que eu me chame assim, chamo-me assim..."

Quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes

Espero que a minha amiga Charlotte não se ofenda com o título desta entrada. Refere-se simplesmente ao facto ter recebido um convite para o lançamento do livro do Meu Pipi.

Não podendo estar presente (e assim respondo a dois mails, que quiseram saber se me tinham visto pelo Maxim's), não deixei de comprar o livro.

Já quase tudo foi dito sobre o blogue e o autor do mesmo. Desde que comecei a ler o Pipi, achei que havia algo de familiar nas suas frases curtas. Ao ler o livro proibido a menores de 18 anos lembrei-me de o que seria.

O Pipi, quando insinua que tudo e todos são rotos, lembra-me o texto do Veríssimo chamado Homem que é Homem (e que N. M, fez a bondade de publicar neste lado do lago).

Aqui está um excerto:

"Homem que é Homem - daqui em diante chamado HQEH - não gosta de musical , filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que os novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.
(...)
Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.
(...)
Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!
(...)
Situação 3

Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofado colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:
_ Se quiser usar o meu...
_ O seu...?
_ Joelho.
_ Ah...
_ Ele está desocupado.
_ Mas eu não o conheço.
_ Eu apresento. Este é o meu joelho.
_ Não, Eu digo, você...
_ Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referencias. Ti-au.
Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.
(...)
HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mutua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.
HQEH nunca vai a vernissage.
HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, nau leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.
HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB. Não desencostaria da parede.
(...)
HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.
Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado."


Aqui está completo.

Se não sabemos quem é o Pipi, podemos ter a certeza que é um HQEH.

Amantis iusiurandum poenam non habet
(O juramento de um amante não tem castigo)

A simpática Charlotte questiona-me sobre a origem de amante.

Não tenho nada para corrigir, apesar de poder acrescentar que amante, assim como amor, são palavras cujo significado corrente (único) é recente. Ao contrário do Brasil, onde o verbo Amar é usado com generosidade (influência do francês ou talvez do clima tropical?), nesta (pen)última flor do Lácio a palavra é dificilmente escrita ou, mais ainda, falada.

Antigamente, Amor já quis dizer benefício ou favor (para o que hoje chamamos cunha!). Como no latim, significava também afeição ou amizade. Amigo, pelo seu lado, também significou amante, do Lat. Amica. Fazê-lo, amor portanto, podia ser simplesmente dar provas de amizade:
"Meu Amigu' , enquant' eu uiuer/ nunca uos farey amor/ per que faça o meu peor" (CA)

Como sabemos, amor era também algo de que se morria (Sim, mesmo antes de Camilo), como neste exemplo (CBN, C. 105):
"Mui sen uentura preserey/ Se lh' o agora ia negar/ Pois ueio que moyro de amor/ E mais por que lh' o negarei?". Que faz mais sentido quando nos lembramos de Ovídio - Militat omnis amans et habet sua castra Cupido - Todos os amantes são soldados e Cuito tem os seus acampamentos.

Em Portugal não se ama um clube, apesar de se morrer pelo mesmo. Não se ama um cozinhado ou mesmo a vida. Gosta-se.

Mas não foi sempre assim. Tal como no latim, o português usava diferentes palavras para diferentes tipos de Amor. O brasileiro esqueceu-as, pelo que usa Amar em tudo. O português perdeu-as, também, pelo que só Ama quando não tem outra hipótese.

Quando se gostava de alguma coisa, era-se Cultor, em Latim. Ou, então Studiosus. que veio dar estudioso. Estudante foi a forma que, numa selecção darwiniana da língua, chegou até nós (deixando estudamte, estudiante e studante no caminho). Há outra teoria para a origem desta palavra, mas não me parece ter crédito.

Penso que foi o MEC que escreveu que dizer "Eu amo-te" soa tão estranho que só nos arriscamos a usar esta expressão, quando já nada mais interessa. Dando, assim, razão a Luiz Vaz, quando escreveu "he grande dos amantes a cegueira" (Lus. V, 54)

quarta-feira, outubro 22, 2003

Bibliophilia #7

Ao contrário da famosa lista "Li e Gostei", fica aqui última "Comprei e ainda não Li":

"Lost Classics, writers on books loved and lost" Ondaatje, Michael, et al. Bloomsbury 2003 (paperback).

"Out of the Flames", Gladstone, Lawrence e Nancy. Broadway 2002. Este livro é escrito pelos autores de Warmly Inscribed e Used and Rare, já referidos neste blogue.

Conta a história do livro (Restitutio , de que só existem três cópias!) maldito de Servetus, indivíduo extraordinário morto pelo fogo, pelos Protestantes suiços, com uma cópia do livro amarrada à sua perna. A Inquisição, que não podia ficar atrás, voltou a matá-lo, meses depois, numa encenção com um boneco em seu lugar.

Uma boa história para juntar às dos livros proibidos no nosso Errante.

Sigo, daqui a pouco, para Portugal. Espero chegar a tempo de ir ao lançamento no Maxim's.



sábado, outubro 18, 2003

Ad Astra
Não deve have anti-americanista que não se comova com estas diferenças entre o primeiro americano no espaço e o recente tripulante da Nave Divina:

First, the launch time was a secret and not broadcast live, for fear that -- well, the rocket would blow up.
In 1961, Alan B. Shepard had every camera in the hemisphere tracking his flight in real-time.
Second, Yang, like you might expect, is a wee bit heavy on the ideological platitudes.
Compare and contrast with Shepard, the first man from the free world to go into space. Here's the tale of the tape:


"I will live up to the expectations of the motherland and the people, and will try my best to make every part of the mission successful." -- Yang, 15 Oct. 2003

"Why don't you fix your little problem and light this candle?" -- Shepard, 7 May 1961


"... and I will gain honor for the People's Liberation Army and for the Chinese nation." -- Yang

"Mmmm. Weh-ayl, I'm a wetback now." -- Shepard, after urinating in his suit


"I will not disappoint the motherland. I will complete each movement with total concentration." -- Yang

"Dear Lord, please don't let me fuck up." -- Shepard


A comparação foi feita pelo Baltic Blog, encontrado através do Russian Dilettante (do Lat. Dilectio- Amor).

quinta-feira, outubro 16, 2003

Felix Culpa

De um leitor:
"Caro amigo,
visitei hoje o seu blog pela primeira vez tendo
apreciado bastante os conteúdos. todavia, o que me
leva a escrever-lhe tem a ver com algo que li na
coluna Vademecum, mais precisamente felix culpa. Como
admirador do poeta Robert Frost sei, de ter lido
algures, que ele utilizava muito a metáfora do felix
culpa e, desse modo, gostaria que o Latinista Ilustre
me esclarecesse sobre esta expressão.
Muito Obrigado"


Felix Culpa, ou Felix Ruina, costuma ser livremente traduzido por "Feliz Pecado", por ser relativo ao pecado original. O poema "Nothinhg Gold can stay", de Frost, é o exemplo dessa metáfora como bem sabe:

"Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leafs a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay

(...)"
O termo Felix Culpa poderá vir de Santo Ambrósio mas, se o leitor assistiu à Missa de Páscoa antes do Concílio Vaticano II, poderá lembrar-se da frase notável:
"O felix culpa quae talem et tantum meruit habere redemptorum."

Ou seja, o Pecado original, a Queda, é feliz pois recebe tão grande redenção: A Encarnação de Cristo. Não sou grande teólogo, mas a ideia parece ser que a liberdade com que Deus nos criou (logo desviável para o pecado) pode também, pela Fé e as acções que escolhemos praticar, levar-nos (depois da vinda de Cristo) até à salvação.

Isto transforma a visão A.C. do pecado original como definitivo ou radical (de raíz) para mostrar a Encarnação como o ponto axial da história. Claro que a visão protestante é diferente, pois o fim é a glória de Deus (pode encontrar mais aqui).

Voltando a Frost, uma boa visão pode ser esta:
"The pattern of paradox is assured; the fall is really no fall to be mourned. It is a felix culpa and light-bringing. Our whole human experience makes us aware that dawn is tentative, lovely, but incomplete and evanescent. Our expectation is that dawn does not "go down" to day, but comes up"

Espero ter ajudado.



quarta-feira, outubro 15, 2003

Bibliophilia #6

A Librarie Alain Ferraton (Chaussée de Charleroi, 162/8 Bruxelas), onde já comprei interessantes livros e gravuras sobre Portugal, vai realizar um leilão no próximo dia 18. Antigamente era possível fazer a Orde d'achat por telefone, agora podemos seguir o link até ao catálogo e encomendar. Mesmo que se esteja a visitar a Sublime Porta ou entretido com o sitemeter.

Só para abrir o apetite:

« Le Chasseur bibliographe ». Revue bibliographique, littéraire, critique et anecdotique, rédigée par une société de bibliographes et de bibliophiles, suivie d'une notice de livres rares et curieux, la plupart non cités, à prix marqués. Du n° 1, janv. 1862 (1re année) au n° 12, déc. 1863 (2e année). P., François, 1862-1863, 2 vol. 8°, rel. édit., tache p. 29/32 (t. 1), p. de titre du n° 1 défraîchie (t. 2), p. de t. et p. 36 réparées (t. 2). 25€/50€

MUNOZ y ROMERO (T.). - Diccionario bibliografico-historico de los antiguos reinos, provincias, ciudades, villas, iglesias y santuarios de España. Madrid, M. Rivadeneyra, 1858, 4°, non coupé./ SERAFIN de AUSEJO (P.). Reseña bibliografica de las obras impresas del beato diego Jose de Cadiz (1743-1801). Madrid, Inst. nac. del Libro espanol, 1947, 8°./ Ens. 2 vol., br., couv. lég. défr. 30€/60€


Boa sorte.

quinta-feira, outubro 09, 2003

Lacão

A mais recente polémica sobre a liberdade de Paulo Pedroso, a entrevista de Lacão, lembrou-me uma vexata quaestio: a origem deste apelido. Já em anteriores lides tinha tido a curiosidade de encontrar a etimologia deste nome. Parece uma alcunha, como a maioria dos nomes acabados em -ão ou -inho, mas os dicionários mostram que é um sinónimo de presunto ou pernil de porco.

Quanto à origem, todos adiantam ser obscura, mas tanto o meu novo Houaiss, como o velho J. P. Machado indicam a origem latina tardia, através de Lacca, "espécie de tumor nas pernas de animais". Nas Peregrinações aparece, no cap. 55, "... a fora hua boa matalotagem de arroz, açucar, lacões & duas capoeiras de galinhas". A intriga, pois, continua.

Ainda quanto à polémica, dizia hoje um espirituoso deputado:
- Uma opinião legal, do Lacão, não pode ser outra coisa que não uma Lacuna!

quarta-feira, outubro 08, 2003

Bibliophilia #5

Não tenho a certeza se foi o Aviz que escreveu que o Tristam Shandy foi um dos livros da sua vida. Se foi, este site é lhe dedicado.

Para quem, como eu, gosta de policiais, especialmente aqueles que envolvem requintes culinários, cerveja, flores e o único detective no mundo que pode dizer:
"Compose yourself, Archie. Why taunt me? Why upbraid me? I am merely a genius, not a god." ... esta página é indispensável.

Ambos os sites chegam por indicação da Biblioteca Invisível.

Bibliophilia #4 ou Bibliotheca Abscondita

Cheguei finalmente à Biblioteca Invisível!

É uma espécie de paraíso para qualquer aprendiz de leitor de Borges. Nesta biblioteca estão referenciados os livros alguma vez mencionados e nunca existentes. Do Dom Quixote a Lovecraft, de P. G. Wodehouse's a J. K. Rowling.

Ao contrário dos outros catálogos, neste os livros são removidos se se descobre que, estranhamente, existem.

O autor pede-nos ajuda, a descobrir nomes de livros imaginários e indica suspeitos:
"Likely suspects: Agatha Christie, E. F. Benson, David Foster Wallace, Milan Kundera, Paul Di Filippo, and Lemony Snick"

Cheguei a este maravilhoso site através do Bibliotecario Desordenado, um link do nosso Almocreve.

Tem ainda o famoso catálogo do Conde de Fortsas e a Reference Shelf tem artigos suficientes para dar que escrever à Montanha por vários dias!

Os maníacos de "José Luís Borges" podem ainda perder-se neste hexágono.

Boa caça!

domingo, outubro 05, 2003

Currentem... incitare
Incitar quem já está a correr

Acabo de ver, na sic notícias, as comemorações oficiais do 5 de Outubro. Depois do discurso do actual PR, este e o Dr. Santana Lopes abeiram-se à varanda e, qual José Relvas, acenam à multidão.

A multidão era composta por 2000 crianças, o que é normal visto que ninguém consegue, em democracia, obrigar um adulto a estar uma hora numa praça para comemorar uma revolução com 93 anos (aliás, em democracia, isto raia os limites do abuso infantil, mas enfim...). As queridas crianças estavam dispostas em cinco retângulos, com as cores e a forma do logotipo com que o Dr. Santana Lopes substituiu o do Dr. João Soares.

Assim, como uma versão política do terço vivo, o logotipo vivo do Dr. Santana cantou bem alto o hino da república. É caso para dizer: Could it be any more obvious?

Mea mihi conscientia pluris est qum omnis sermo.
Para mim, a minha consciência vale mais que qualquer discurso.

Escreve o nosso errante Abrupto:
"Eu, quando ouço alguém dizer que dá a sua “palavra de honra”, aceito-o, mas isso também são hábitos pré-burocráticos."

Esta frase fez-me de JPP fez lembrar a de Cícero que encima esta entrada. Também é muito conhecida a de S. Jerónimo - Sufficit mihi conscientia mea; non curo quid loquantur homines (basta-me a minha consciência, não me interessa o que dizem os homens). Isto, claro está, a propóstido da demissão do Porf. Lynce e a palavra de honra do Ministro Martins da Cruz.

JPP lembra-nos, parece-me que era essa a intenção, que a "palavra de honra" é uma prova pré-burocrática, ora isto mais interesse tem quando toda a questão parece ter origem num erro de gabinete, num bureau.

Mas, apesar de concordar com JPP, tenho a impressão que a transição do Ancien Regime (com as concessões de cartas de previlégios e mercês individuais) para o Estado de Direito (e da lei geral e abstrata) se fez através duma burguesia que via na honra a mesma força probatória que a antiga nobreza de setecentos.

Ou seja, apesar de vivermos num estado moderno, a verdade é que é ainda sob honra que um médico atesta uma baixa ou uma testemunha fala em tribunal. Talvez sejam resquícios dum republicanismo moral, talvez o Prof. Espada possa encontrar aqui a "gentlemanship" porque pugna. O bom nome e a honra impoluta ainda têm valor de prova. Talvez seja por isso que o dono do Gastão afirme que tem"a obrigação de acreditar na palavra dos ministros do governo" e assim só os possa acusar de falta de solidariedade.

Talvez o nome deste post devesse ser, simplesmente, "A Liga de Cavalheiros Extraordinários".

Bibliophilia #3

Uma ideia da Aurora:
"Caro Latinista,

A questão do pescoço para um lado e para o outro enquanto se percorrem estantes de livrarias já me tinha ocorrido, mas pareceu-me demasiado doméstica para importunar a blogosfera. Como estava enganada...
Sugiro uma solução para os editores - nunca conseguirão colocar-se de acordo - que permite aos compradores de livros decidir, e que é a seguinte:

continuam a editar com lombadas ora fachas ora canhotas ( plagiando os Marretas) mas oferecem um marcador de livros que numa das faces tem uma lombada igual à exterior mas destacável e autocolante. Assim, quem quizesse poderia "virar a casaca`" à lombada em casa. Os livreiros poderiam fazer o mesmo ( há materiais autocolantes que se podem descolar sem danificar a superfície onde estiveram) com o exemplar que têm na estante.

A bem dos nosso pescoços,

Aurora
"

quinta-feira, outubro 02, 2003

Bibliophilia #2

Lido no mais madrugador dos nossos blogues:
"LOMBADAS DOS LIVROS

O que me faz escrever hoje é um fait divers. falo das lombadas dos livros. quando "browsamos" por uma livraria fora, dobramos ligeiramente o pescocinho para a esquerda para ler as lombadas dos livros em parada.de repente, somos acordados naquela viagem porque algumas lombadas têm o texto a ler ao contrário. se os editores soubessem como isso é perturbador..."

Como é que este Latinista ainda não tinha escrito sobre isso? Claro que nos tempos idos dos pergaminhos era ainda mais difícil... os rolos de papiro ou pergaminho enrolado eram dispostos ao comprido, como garrafas numa prateleira. Existem algumas referências a estantes romanas, sei porque já li e perdi o rasto na TTT (Totus Terrae Tela), será que a Charlotte conhece?

Quanto ao problema da leitora do Abrupto, não posso estar mais de acordo!
A questão depende da versão americana (cabeça inclinada para a direita!) e continental (inclinada para a esquerda). A Americana, como se sabe, permite a leitura da lombada quando os livros estão pousados horizontalmente (ideal para os coffee table books). A continental, por outro lado, faz mais sentido para os livros que estão sempre ao alto: lê-se da esquerda para a direita, o que é natural, como uma lista.

Já pensei, num momento raro de militância e pró-actividade, como agora se diz, constituir uma associação de leitores que fizesse lóbi no sentido de harmonizar as edições portuguesas.

No entanto, o comentário transcrito, traz uma pergunta dissimulada: Como é que se organiza uma biblioteca?

Sem entrar por questões técnicas, (sistemas milimésionais, etc.) eu coloco todos os meus livros com as lombadas num só sentido. Ou seja, os livros americanos ficam de pernas para o ar. Excepto numa estante sobre política americana em que são os poucos livros franceses que estão ao contrário (tão apropriado, não é?).

Alguém tem ideias e sugestões sobre a questão? Contributos para latinistailustre@hotmail.com

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