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sexta-feira, setembro 26, 2003

VIRIATO!

Fui ontem, como qualquer latinista, ver com curiosidade a estreia da nova peça de ficção do Doutor Freitas do Amaral.

A esquerda não estava presente em peso, como na estreia da peça anterior, estavam, aliás, muitos lugares vazios.

A peça começa com uma viagem intergalática, projectada num ecran, numa mistura entre 2001 de Kubrick e o Cosmos de Carl Sagan.

Logo ao princípio, a druída (com uma vestimenta erótica) avisa que "Quando a Luz é fraca o povo é fraco, quando a Luz é forte, o povo é forte", num leve fascismo avant la lettre.

O guarda roupa era inspirado. No musical Hair ou na festa do Avante.
Há homens barbudos com cabelo comprido e raparigas desgranhadas a tocar batuques. Enfim, um vulgar grupo de animação de rua da baixa-chiado.

A oração a Endovélico realizava-se ao movimento espasmático de batidas de pés na terra, como o "Haka" da equipe de rugby neo-zelandesa. Pelos vistos na Lusitânia comia-se melancia nas festas, debaixo de uns panos Versace e o Vitor de Sousa parecia pouco à vontade no meio daquelas danças.

O Autor, pelos vistos, continua fiel às suas origens democrata-cristâs, adepto do sexo pós-matrimonial, ou seja, depois do casamento de Viriato a turba de pastores-guerreiros embarca numa ruidosa orgia.

Os romanos eram ardilosos e queriam "conquistar o mundo" e "impôr as suas leis a todos os povos" e porque que é que "não guardavam as suas leis e a sua cultura para eles sem a impôr aos outros?". Além disso o senado romano reunia-se em termas com azulejos muçulmanos, mas isso agora não interessa nada.

O herói lusitano, correspondente à imagem descrita por Posidónio e Diodoro é um homem puro e justo, mas o seu catedrático revisor decide colocar Viriato num discurso às suas tropas. Como Henrique V em Agincourt, reanima os fiéis e começa a falar sobre a tão amada Liberdade. Contra os imperialistas e ususrpadores, que não respeitam a sua cultura, o direito a terem o seu deus. Francisco Anacleto Louçã não faria melhor, devo mesmo ter sido o inspirador.

A peça poderia versar sobre a traição, sobre a profundidade psicológica que leva o companheiro a apunhalar o irmão, mas não passa do panfletismo primário. Em vez da ambição de poder, fica pelo ouro e "mulheres, muitas mulheres". Em vez da ferida do ciúme temos oportunismos fáceis.

Cipião diz a famosa frase "Roma não paga a traidores", mas ao mesmo tempo lava as mãos como Pilatos e dá uma gargalhada a la Fantasma da Ópera.

Freitas faz assim uma natural (para si) mistura entre a propaganda do SNI e o manifesto do "povo de Seattle". Típico.

Recria um mito fundador para um país que não o necessita. Não me parece uma peça adequada para o teatro do INATEL, talvez se fosse ainda para a FNAT...

A Zita Seabra que me perdoe, mas não vou comprar o livro.

segunda-feira, setembro 22, 2003

Codex Justinianus

Depois de mais uma semana em Estrasburgo, longe do Latinista, regresso para encontrar a caixa postal cheia de perguntas e dúvidas sobre latinismos.

Prometo tentar responder na medida do possível, apesar da ideia deste bogue não ser uma espécia de "ciberdúvidas clássico".

Vejo na televisão o motim num jogo de futebol italiano, com feridos graves, agentes da autoridade esfaqueados e dirigentes exultantes (ou veementes, como diria o dr. Sampaio). No fundo, nada que pudesse chocar um romano clássico!

Em 532 estalou uma revolta conhecida pela sua palavra senha "Nika", nessa cidade romana que hoje consideramos não europeia, Constantinopla.

Nesses dias do Imperador Justiniano, os aficcionados (de corridas) eram divididos em verdadeiras claques: os brancos, os vermelhos, os azuis e os verdes. Estes dois últimos eram os mais poderosos. Existem várias teses que afirmam e contrariam que estas claques eram verdadeiras facções organizadas de milícias populares e religiosas, mas Gibbon considera-os uma espécie de holligans avant-la-lettre.

No dia 10 de Janeiro (se fiz bem as contas...) o prefeito de Constantinopla (uma espécie de Governador Civil) decidiu prender sete membros que eram considerados culpados de homicídio, mandando enforcá-los. Mas, "curiosamente", dois escaparam, um "verde" e um "azul", que se refugiaram num mosteiro próximo.

Nos dias seguintes as duas claques pediram misericórdia ao imperador Justiniano, que não só a negou como mandou seguir os jogos. Os dirigentes e apoiantes desportivos começaram então uma revolta que durou uma semana e destruiu parte da cidade, incluíndo a velha Hagia Sophia. Como qualquer político que se mete com a gente do desporto, o imperador decidiu ir ao hipódromo e declarar uma amnistia para todos, ao que a maralha respondeu com mais revolta e declarou um outro (em pleno estádio desportivo) como o novo imperador!

Justiniano estava prestes a fugir, como ex-imperador, não fosse a sua mulher, Teodora, tomar as rédeas do assunto enviar, com o seu marido, dois corpos de tropas leais para o hipódomo onde terminaram a revolta com um banho de sangue.

Como se vê, um cenário que insiste em não mudar!



quinta-feira, setembro 11, 2003

Peregrinari
Até quarta-feira que vem estarei na vila de Estrasburgo, onde me espera o mau tempo e teclados sem acentos. O Latinista vai esperar um bocadinho...

sexta-feira, setembro 05, 2003

Epistularum
Para dúvidas, comentários e latinismos em geral, relembro o mail latinistailustre@hotmail.com

Primus inter Pares

Ontem decorreu, presumivelmente, a última reunião deste Conselho de Opinião da RTP. Pela primeira vez, no actual mandato, não houve quorum, pelo que não foi feito nenhum parecer ao Contrato de Concessão de Operador de Serviço Público.

Ilustres representantes da Sociedade dita Civil não apareceram e assim termina, sem cumprir o seu dever, este importante orgão. O Parecer seria, apesar das reservas de alguns, positivo.

Houve quem tentasse interpretar as faltas e as presenças. Mas não o podemos fazer. Não poderemos nunca saber se EPC, por exemplo, está de férias ou, simplesmente, desinteressado.

O importante, e é a primeira vez que aqui o faço, é deixar escrito um elogio: O presidente deste Conselho, J. M. Consiglieri Pedroso, sempre se afirmou um conselheiro igual a nós outros. Mas foi sempre um Primus inter Pares. Defendeu a causa e a coisa pública, sem olhar a partidos ou governos. Lutou contra o PS e PSD, porque lutou pela qualidade que queria ver no audiovisual português.

Disse, no fim da reunião, que estava retirado da vida activa. Esperamos que não, mas desde já um grande Obrigado!

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