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sábado, agosto 30, 2003

Melius est impune delictum relimquere quam innocentem damnare
É preferível deixar impune um delito que condenar um inocente


Isto a propósito desta notícia, em que o bastonário da Ordem dos Advogados deixou hoje um "recado" à sociedade portuguesa, considerando que "mais vale absolver 100 culpados do que condenar um inocente".

Adiante, com cheiro a "Caso Casa Pia", acrescenta, segundo a Renascença, que: "a prisão preventiva é excessivamente utilizada" e que "as escutas telefónicas são utilizadas algumas vezes de forma excessiva".

"Os direitos da defesa durante o interrogatório não estão totalmente salvaguardados", considerou ainda o bastonário dos advogados, relembrando que "o habeas corpus (suspensão da prisão preventiva) quase nunca é aplicado".


JMJ conhecerá melhor que eu esta questão, mas relembro o lema do Imperador Fernando I de Habsburgo: Fiat Iustitia et Pereat Mundus! (Faça-se Justiça embora pereça o mundo), tão ao gosto de um Louçã que grita "Faça-se justiça, doa a quem doer!"

Bom, ao menos Hegel sugeriu "Fiat Iustitia Ne Pereat Mundus": Faça-se justiça para que não pereça o Mundo...

Holocaustum

Este texto estava, há muito, prometido. A nossa querida (e com nossa refiro-me à blogosfera, que não quero questões com cavalheiros do país da prata) Bomba deve pensar que me esqueci, ou não liguei mais ao que tinha prometido... não, infelizmente apenas tive o meu tempo todo ocupado com as minhas férias. Para já, e por isto, apresento-lhe as minhas desculpas.

A questão do nome Holocausto foi também referida pelo Aviz e, salvo engano, pelo Abrupto, mas esta transcrição é dedicada à Charlotte:

The Holocaust
by Bruno Bettelheim


"(...) the horror of murder is part of our most common human heritage. From earliest infancy on, it arouses violent abhorrence in us. Therefore in whatever form it appears we should give such an act its true designation and not hide it behind polite, erudite terms created out of classical words.

(...) The correct definition of "holocaust" is "burnt offering". as such, it is part of the language of the psalmist, a meaningful word to all who have some acquaintance with the Bible, full of the richest connotations. By using the term Holocaust, entirely false associations are established through conscious and unconscious connotations between the most vicious of mass murders and ancient rituals of a deeply religious nature.

(...) Calling the most callous, most brutal, most horrid, most heinous mass murder a burnt offering is a sacrilege, a profanation of God and man.

Martyrdom is part of our religious heritage. A martyr, burned at the stake, is a burnt offering to his God. And it is true that after the Jews were asphyxiated, the victim's corpses were burned. But I belive we fool ourselves if we think we are honoring the victims of systematic murder by using this term, wich has the highest moral connotations.

(...) We do so because it is easier for us to cope; only in doing so we cope with our distorted image of what happened.

(...) By calling the victims of the Nazis "martyrs", we falsify their fate. The true meaning of the word "martyr" is "one who voluntarly undergoes the penalty of death for refusing to renounce their faith" (OED). The Nazis made sure that nobody could mistakenly think that their victims were murdered for their religious beliefs. Renouncing their faith would not have saved none of them. Those who who had converted to Christianity were gassed, as those who were atheist, and those who were deeply religious Jews. They did not die for any conviction, and certainly not out of choice.

(...) To call these most wretched victims of a murderous delusion, of destructive drives run rampant, martyrs (...) is a distortion invented for our confort., small as it may be.

(...) We could feel so much better if the victims had acted out of choice. For our emotional relief, therefore, we dwell on the tiny minority who did exercise some choice: the resistance fighters of the Warsaw Ghetto, for example, and others like them. We are ready to overlook the fact that these people fought back only at a time when everything was lost, when the overwhelming majority of those who had been forced into the ghetos had already been exterminated without resisting.

(...) But the more we dwell on these few, the more unfair are we to the memory of the millions who were slaughtered - who gave in, did not fight back - because we deny them the only thing which up to the very end remained uniquely their own: their fate."

Cum sapiente loquens, perpaucis utere verbis
Quando falares com um sábio, usa poucas palavras

Recebi, finalmente, o quinto volume do dicionário Houaiss! Sou um homem mais letrado por isso, pelo menos até à palavra Redada. Para chegar ao fim do alfabeto resta-me esperar que o Circulo de Leitores se apresse.

Eu entendo que a ideia de um clube de livros implica que estes chegam à mesma suave velocidade das prestações... mas e nós? Os fanáticos? Os bibliófilos que olham, com desespero, para estante a tentar reservar espaço para os volumes que se seguem? Não poderia haver uma via-verde, uma impressão expresso?

quinta-feira, agosto 21, 2003

Intente Legere

Correndo o risco de imitar o exemplo das listas tipo "Li e gostei", aqui deixo algumas referências dos livros que acabei, recentemente, de ler:

"DR. TATIANA'S SEX ADVICE TO ALL CREATION" - Um engraçado livro de divulgação científica, em que a história natural do sexo na evolução é apresentada como uma série de cartas do consultório da revista Maria.

A referência feita por JPP do livro Among the gently mad, levou-me a reler o primeiro livro "A gentle Madness", onde se descobre as estórias da voracidade bibliófila. O apropriado título vem de Benjamin Franklin que, sobre a morte do seu avô também impressor, escreve que este tinha sido tocado por essa "gentlest of infirmities, bibliomania".

O jovem Benjamim escreveu, aliás, este apropriado epitáfio para ser colocado na sua morada final:

The body of
B. Franklin, Printer
(Like the Cover of an Old Book
Its Contents torn Out
And Stript of its Lettering and Gilding)
Lies Here, Food for Worms.
But the Work shall not be Lost;
For it will (as he Believ'd) Appear once More
In a New and More Elegant Edition
Revised and Corrected
By the Author.



No entanto, como acontece tantas vezes nas obras póstumas, a vontade do autor não foi respeitada e sobre si repousa apenas a singela frase:


Benjamin and Deborah Franklin: 1790


Neste campo, que muitos Bloguistas prezam, li dois livros muito interessantes. Não são ensaios académicos mas relatam o primeiro contacto e consequente vida com o vício bibliófilo. São escritos pelo casal Gladstone.

Ainda sobre esta paixão, talvez o Aviz conheça A Passion for Books, de Harold Rabinowitz, escritor e bibliófilo judeu que começa este seu livro com a seguinte frase do Rabi Nachman de Bratislava:

"Disparage no book, for it is also a part of the world"

domingo, agosto 10, 2003

FAQ : Frequenter Allatae Quaestiones (but not really...)

Na curiosa discussão histórica entre o Opções Inadiáveis e o Catalaxia, o primeiro escreve:"Quanto à jurisprudência de Ulpianus… bem, peço ajuda ao Latinista ilustre. Já não sou do tempo em que se aprendia latim na escola."

Com todo o gosto. A frase, latina, escrita no Catalaxia foi a seguinte:"Iuris prudentia est divinarum atque humanarum rerum notitia, iusti atque iniusti scientia".

Traduzindo: a Jurisprudência é o conhecimento das coisas divinas e humanas e a ciência do justo e do injusto. A frase de Ulpiano vem do sempiterno Digesto.
Não posso deixar de me lembrar ter ouvido o Prof. Ernani Lopes referir um dia que: - Desse grupo, ou não se fizeram opções, ou estas não eram inadiáveis!


terça-feira, agosto 05, 2003

FAQ : Frequenter Allatae Quaestiones
(ou maravilhosas latinices da www - Tela Totius Terrae )

Como é que os latinistas ilustres sabem que amanhã estará calor? Aqui está a resposta.

Como é que os latinistas ilustres descobrem sites (inscriptio - interretialis vel interneti) como o anterior? Aqui está a resposta.


Necessitas Feriis caret
(Não há feriados quando há necessidade)

O sentido desta frase latina deve-se ao ofício agrícola. Porque, a lavoura (para usar um termo "popular") não espera durante as férias ou os dias feriados.

Alguns benévolos leitores terão reparado que me afastei do computador por uns tempos, que tirei umas férias, que fiquei isolado da internet. Na realidade, embora essa fosse a intenção, acabei por ficar realmente isolado. Em Abrantes, onde uma generosa familiar me acolheu, e aos livros que levei, numa casa sobre uma curva do Rio. O calor esperado seria compensado por uma preciosa piscina sobre o Tejo. O que nunca me ocorreu é que passaria uma noite a colocar bilhas de gás dentro dessa mesma piscina.

O incêndio começou longe, colunas ora negras ora cinza clara, atrás de montes. Martinchel ardia - fomos avisados - e ouvíamos as sirenes e o ocasional helicópetro (que brevemente veríamos com esperança nos olhos e o chamaríamos, com familiaridade, de Héli-Bombardeiro).

Não me lembro da sucessão exacta dos focos de incêndio: Gavião, São Miguel, Bemposta... Num instante estava no Tramagal, do outro lado do rio, uma margem inteira a arder em meia hora. Mal acreditava no tamanho das labaredas, mal conseguia calcular a distância. Os relatos e os rumores corriam à velocidade do vento que atiçava o fogo: "Já chegou ao quartel de infantaria"; "Passou o IP (como ainda chamam à A23)"; "Está ao lado do Liceu"...

A televisão sempre ligada transmitia imagens requentadas, de choros e gritos da noite anterior, e desinformava como as pessoas que corriam, aflitas. No ar voavam pequenas hélices a arder: folhas de eucalipto am brasa. Chovia neve de cinza. As pessoas, que a televisão chama de populares, tratavam o fogo por tu. Diziam "ele agora vem para ali", "ele vai descer aquela encosta". "Ele" era, é, o fogo. Do nada aparecem mãos e braços que pegam em baldes e enxadas de alguém para acorrer ao que for preciso. Não há polícia a impedir passagem ante uma estrada em fogo e este também não pede antes de atravessar. A responsabilidade de chegar perto das chamas era sempre individual, a tragédia era de todos.

Enquanto jornalistas chamavam de "dantesco" ao inferno em chamas, ao meu lado alguém dizia - "Eu conheço a sua cara?" - "Sou bancário na Caixa Geral de Depósitos" - "Ah! então é você que me dá o ordenado todos os meses!"- enquanto se batia com ramos no chão incandescente. Ouve-se histórias de misérias, de pertences perdidos, de poupanças arruinadas.

Preparei um carro para a fuga, evacuaram-se os mais velhos. Calculo que terá sido esta a experiência mais angustiante: Quem foi evacuado não sabia se a sua casa estava, ou não, a arder. Não havia tempo para informar e no ar, pendurados pelos fios, viam-se a arder madeiros suspensos, que já foram postes de telefone. A noite de ontem chegou abençoada, menos quente, e fogo afastou-se para Constância. Continuava a arder Gavião. A noite, apesar de mais fresca, foi, claro, de sobressalto. Várias vezes encontrei outros no terraço da casa, a meio de outra noite sem dormir. O fogo ficou a 150m, outros não tiveram essa sorte.

A Natureza não dá feriados nem férias, assim como o estado de necessidade. A catástrofe não escolhe dias de descanso. Mas estes feriados, estas "festas" em honra de Santos e Emigrantes podem, ao menos, tentar não provocar desgraça. Este ano não haverá foguetes na alvorada e ainda bem, porque este verão há muita gente que não dormiu.

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